Sony, Kojima e Xbox: O que esse triângulo pode nos revelar sobre o futuro?
Por: Rogério Leal

Após (mais) uma decisão polêmica e, francamente, imbecil, a Sony utilizou um anúncio simplório em sua conta oficial no X para informar o encerramento do financiamento de Physint. O novo projeto de Hideo Kojima prometia ser o sucessor espiritual de Metal Gear e, segundo o próprio criador, revolucionaria os games de espionagem. Vindo dele, eu acredito.
Chamo a decisão de imbecil porque a PlayStation está chutando pela porta dos fundos uma das mentes mais criativas da indústria atual. A alegação, segundo a Bloomberg, seria o estouro do orçamento e dos prazos no cronograma. A ironia? Orçamento para financiar trocentos jogos de serviço de franquias que absolutamente ninguém pediu, a Sony tem de sobra.

A arrogância azul e a sombra de Jim Ryan
Esse episódio entra para o currículo recente da empresa junto ao fechamento de estúdios e ao fim do suporte à mídia física em seus consoles. Eu confesso que não entendo mais a estratégia de negócios deles. Será que, pela falta de concorrência real do Xbox na venda de hardware, a Sony pensou que qualquer decisão seria engolida passivamente pelo mercado?
Começo a pensar que sim. A arrogância de quem “ganhou” a guerra de consoles parece ter subido à cabeça da diretoria. Nem parece que Jim Ryan saiu do comando da divisão PlayStation e entraram no lugar Hermen Hulst e Hideaki Nishino, pois a marca continua estagnada, colecionando apenas notícias negativas e decisões anti-consumidor.
A queda de Spencer e a surpresa chamada Asha Sharma
Do outro lado do muro, o cenário não era menos caótico. Entre aquisições bilionárias de estúdios e um forte apelo de marketing, a Microsoft viu que as contas do Game Pass não estavam batendo. A tentativa de transformar o serviço na “Netflix dos games”, inundando o catálogo com lançamentos de qualidade duvidosa, cobrou seu preço: queda na venda de consoles, estagnação de assinantes e fechamento de estúdios queridos.
O resultado? A “aposentadoria” de Phil Spencer, que teve seus méritos no conturbado início do Xbox One, mas se perdeu completamente no percurso da geração atual.
Para a missão de revitalizar a marca, assumiu Asha Sharma, vinda da divisão de IA da empresa. No início, fiquei espantado pela sua aparente falta de ligação com o mundo dos games. No entanto, nos últimos meses, ela começou a tomar decisões que mostram o desejo de colocar a marca no páreo novamente.
Reduzir o valor do Game Pass base (mesmo que isso signifique receber Call of Duty apenas um ano depois) e criar soluções para salvar jogos digitais em discos são atitudes de quem está escutando o público e tentando trazer de volta os que partiram. Não teremos mais o Game Pass por R$ 29,90 — esse tempo já se foi e até se especula a inserção de propagandas para segurar os preços —, mas o Xbox demonstra estar disposto a mudanças mais condizentes com a realidade do seu consumidor.

O Xeque-Mate verde
E como o Kojima entra nesta equação? Ele é o resultado explícito de como ambas as gestões estão atuando.
Depois de quase 30 anos de parceria, a Sony dispensou de forma fria, por uma mera videochamada, um de seus maiores parceiros. Por mais que Kojima diga por educação que a relação “continua sólida”, ele não bateria a porta dizendo que nunca mais voltaria. Mas, da forma como aconteceu, esse retorno vai demorar.
Quando questionado pela IGN Japan sobre um possível lançamento de Physint no PlayStation, Kojima foi letal: “Eu não sei a resposta para isso — essa seria uma pergunta para o Xbox. Mas eu realmente não sei ao certo”.
Asha Sharma não pensou duas vezes. Trouxe para debaixo do guarda-chuva verde um nome de peso que tem muito a acrescentar. De arrancada, o Xbox garantiu dois exclusivos de Kojima para a próxima geração: OD (ainda sem data) e o tão aguardado Physint. Quem ama a série Metal Gear, com certeza vai atrás desse jogo onde quer que ele esteja.
O fim de uma geração esquecível e a promessa da nova
Convenhamos: ambas as empresas já abandonaram a geração atual (o Xbox, inclusive, abandonou há muito mais tempo). O foco agora é a próxima geração.
Tendo em vista as últimas movimentações, a disputa nos consoles pode ser reaberta. Não teremos todas as nossas reivindicações atendidas por nenhum dos lados, mas a empresa que perdeu espaço no mercado parece, para a surpresa de zero pessoas, ser a única disposta a ouvir.
Ambas se perderam em uma geração marcada por inúmeros erros e quase nenhum acerto (tema para outra matéria). O Xbox, que abandonou o Brasil e seus fãs de todas as formas recentes, parece estar engatinhando para retomar o diálogo. A balança começa a pesar a favor do lado verde, mas com todas as ressalvas do mundo: no momento atual, nenhuma das duas merece o nosso respeito ou carinho incondicional.
